7 de novembro de 2009

Repetidas

Sou andarilha, de alma cigana
Chama que arde insana
A procura de algum lugar
que sei já estar em mim...

Andar para dentro
requer saber andar pra fora ...
Daí crio asas, invado espaços
recrio passos

No final dá tudo na mesma
se é que dá em algum lugar ...
pois quando acho que cheguei
vira começo e surge um novo caminhar ...

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8 de agosto de 2009

Confusões em mim




Vejo o gozo das feiticeiras


O entrelaçar das almas


O amor que não conhece barreiras...


O céu, beijado por estrelas...

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Sou ser / Que eu mesma crio / (RE) crio...


Sem armadilha

Presença sentida

E volto à essência... ((Então sou menina...))


Mas conheço a carne

Ritual satânico

Arder em chamas... ((Então sou profana...))

Recrio as palavras

Invento metáforas

Finjo, minto ((Então sou perigo... ))

Sinto ciúme infantil

Faço pirraça

Assisto ao próprio melodrama... ((Então sou insana...))

Mostro,

desvendo

Invado, prometo

Novamente fico calada... ((Então sou amada...))

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7 de agosto de 2009

Amor por Poesia...

Solilóquio de um Visionário

Para desvirginar o labirinto
Do velho e metafísico Mistério,
Comi meus olhos crus, no cemitério,
Numa antropofagia de faminto!

A digestão desse manjar funéreo
Tornado sangue, transformou-me o instinto
De humanas impressões visuais que eu sinto,
Nas divinas visões do íncola etéreo!

Vestido de hidrogênio incandescente,
Vaguei, um século, improficuamente,
Pelas monotonias siderais...

Subi talvez às máximas alturas,
Mas, se hoje volto assim, com a alma às escuras,
É necessário que inda eu suba mais!


Publicado no livro Eu (1912). In: REIS, Zenir Campos. Augusto dos Anjos: poesia e prosa. São Paulo: Ática, 1977. p.89. (Ensaios, 32)

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26 de julho de 2009

Somando

Define o que sou...
Definindo quem sou
Somando as palavras que são ditas
E as que parecem sempre esquecidas...

Sou a soma da luz e a escuridão
A soma de tudo que já me fez chorar
Do que me fez gargalhar
Da serenidade e do turbilhão...

Sou a soma do mundo que conheço
Com o qual eu imagino que existe, caro em outras vezes sem preço...
Sou a soma das intenções verdadeiras e das inconfessáveis...
A soma dos amores que tive
Daqueles incontroláveis...

Sou a soma do abandono...
E do ficar mais alguns minutos...
A soma do que tenho com o que julgo ter...

Sou a soma das pessoas que encontrei
E daquelas que insisto em carregar comigo
Seja em pensamento... Seja em sentimento...

Sou a soma de pouca razão
Com muita emoção...
Bravura
E cenas de loucura...

Sou a soma de tudo que sonhei em ser
Com o pouco que sou, a ânsia de aprender... Com a gana de ter...

Sou a soma dos seres que me lêem...
Dos que me descrevem...
Com aqueles que realmente me conhecem...

Sou a soma do sagrado do corpo
E o profano da alma,
Da alma santificada
Com corpo amaldiçoado...

Sou a soma da Santíssima Trindade
Com a promiscuidade
De uma masculina feminilidade...

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16 de julho de 2009

Vestida de mim...

Já sonhei em ser famosa, já me queimei brincando com vela. Eu já fiz bola de chiclete e até tentei ser goleira...

Já conversei com o espelho. Já quis ser professora, escritora, motorista e trapezista.

Já passei trote por telefone.

Já tomei banho de chuva e acabei me viciando.

Já roubei beijo e confundi sentimentos. Peguei atalho errado e continuo andando pelo desconhecido. Já me apaixonei por um ser virtual...

Já raspei o fundo da panela quando minha mãe fazia brigadeiro, já me cortei depilando as pernas, já chorei de tanto rir, já ri pra não chorar... Já tentei esquecer algumas pessoas, mas descobri que essas são as mais difíceis de esquecer... Já fiz juras eternas, já escrevi no muro da escola, já chorei sentada no chão do meu quarto, já fugi de casa pra sempre, e voltei no outro instante. Já corri pra não ver lágrimas nos olhos de alguém...

Já fiquei sozinha no meio de mil pessoas sentindo falta de uma só. Já vi pôr-do-sol cor de rosa e alaranjado...

Já beijei muitas bocas, já bebi uísque até sentir dormente os meus lábios, já olhei a cidade de cima e mesmo assim não encontrei meu lugar. Já senti medo do escuro, já tremi de nervosa, já quase morri de amor, mas renasci novamente pra ver o sorriso de alguém especial.

Já andei de avião e voei dentro de um ônibus velho...

Já fui a reuniões de filósofos e de bruxas... Já fiz poesia para um poeta, lí a sorte de uma cigana e me disfarcei de dona de casa... Já usei vestido de noiva, já senti uma vida tomando forma dentro de mim... Já fui dela, dele, deles... Já acordei no meio da noite e fiquei com medo de levantar.

Já senti vergonha de levar um amigo legal lá em casa, já pintei paralelepípedos usando uma lasca de tijolo...
Já rezei, chamei Jeová, ví a fogueira santa, falei de perdão, traí, decorei mandamentos, dei quatro pés para meu orixá...


Já apostei em correr descalça na rua, já gritei de felicidade, já roubei flores num enorme jardim. Já me apaixonei e achei que era para sempre, mas sempre era um "para sempre" pela metade. Já deitei na grama de madrugada e vi a Lua virar Sol, já chorei por ver amigos partindo, mas descobri que logo chegam novos, e a vida é mesmo um ir e vir sem razão.

Já me senti estrela, cor, tom, rima, vítima, opressor... Já fui idealista, de esquerda, de direita... Tentei ser “sinistra”, mesmo sendo destra...

Foram tantas coisas feitas, vivi mil sonhos, descobri muitos mundos, dividi muitos segredos... Mas nada se compara a ter o poder de mostrar de uma vez só tudo o que sou... A soma de mim, simples assim...

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